É SEMPRE BOM LEMBRAR QUE UM COPO VAZIO ESTÁ CHEIO DE AR*









24.6.10

All, (parte 11)

Quando a vi Deus fez do dia uma borboleta com as asas mais lindas que ele pôde imaginar e ficou admirando-a. Quando nos beijamos ele a soltou.


E são assim os nossos dias...


Esse vôo estonteante prestes a desaparecer...


Sem mais nem menos.

19.6.10

All, (parte 10)

Caí feito uma gota de chuva,
Você feito uma folha me amparou,
Fez-me orvalho.
Sinto-me escorregando lentamente para a próxima queda.

Compreende o que você foi para mim?

Como pôde me amparar de tão longe?
Como eu pude cair de tamanha altura logo em cima de você?

Porque não deixou que eu me esborrachasse no chão e fosse rápidamente sugado para debaixo da terra?
Porque diabos estava plantada naquele exato lugar?
Porque cargas d'água não pediu ao vento que a esquivasse?

Minha vida agora está por um pingo.
Engraçado? Nem um pingo.
Acha que a minha morte será tão bela e curta como um haikai?
Simplesmente... pingar e desaparecer? Não!

Eu resistirei. Me juntarei a alguma poça na rua até que um cachorro velho venha nos beber.

O pior é que isso também dá um haikai.

18.6.10

All, (parte 9)

o nosso amor tinha o charme das consoantes
o sexo, a força das vogais
nunca era o mesmo de antes,
fazíamos
e já não sabíamos mais

gemido mudo com acento agudo
sexo em nexo com os circunflexos
verso perplexo

mas era santo tanto quanto o manto
que vestia maria em seu primeiro orgasmo
de canto em canto
o pranto fez-se encanto
a nossa eucaristia
sumia
nos espasmos

All, (parte 8)

E tuas pupilas funcionavam para mim como dois pontos funcionam numa frase.

17.6.10

All, (parte 7)

Te fiz um soneto, All, na noite do dia 29 de dezembro. Quando tive aquela viagem, vendo umas criaturas marítimas nas paredes das casas; ouvindo cantos de baleias e outras coisas... Haha, foi legal, mas também foi grave. Tive de vê-la novamente.

Soneto da Caminhada Noturna na Rua 47

"Em cada rua da cidade um mar s'esconde
A respiração dos peixes mais estranhos ouço
Mais parece criaturas de um poço
Que habita em mim... Por aqui... Só não sei onde...

Quando caminho o mar da rua vai pra mais longe
À inspiração dos peixes mais medonhos torço
O pescoço e sigo com grande esforço
Pois há algo em mim... Por aqui... Mas não sei onde...

Me sentindo num vídeo da Yoko Ono,
Vislumbro o mar de lá se aproximando,
E saio correndo de volta à tua casa.

É sempre assim nas noites de fim de ano,
Sozinho, calado, saio andando...
Mas sempre volto pra buscar meu par de asas."



Ainda adoro este soneto e já faz anos...

All, (parte 6)

Para deixá-la ainda mais bonita a sua avó era um amor de pessoa. Caduca como o tempo. Caduca como uma rainha qualquer./////////

"Vóvó, você vai ficar para assistir a novela ou quer que eu a leve à casa da Tia Venni?",

"Deixe estar, filhinha, vamos ver o que o sol reservou para nós hoje."


E as coisas sempre aconteciam como deviam.

Tudo em seu tempo./

Tudo em seu lugar.//

(quanto mais velho, o mundo fica mais novo. As coisas não caducam tão belamente como sua avó))))\\//
O nosso amor também caducou, mas em mim...
Hoje ele é um velho rabugento que escreve com um ódio transfigurado em saudade.

Não deixe-se enganar pela leveza dos meus versos, All.
Eu posso matar você.

All, (parte 5)

Só nós naquela escola não gostávamos do Legião Urbana. Só nós naquela escola não estávamos nem aí para o Interclasse. Nós e alguns amigos que tentavam, tentavam, tentavam... mas sempre iam assistir a um jogo do Muppets e sempre cantarolava "Eu sei" na pracinha Getúlio Vargas.///////

"Largam essa coisa, crianças!", era o babaca do professor Arnaldo. Boa gente, mas nunca vou perdoá-lo por ter nos explicado com tanta convicção dois poemas do Fernando.
(quase eu acreditei que a poesia era só mais uma ciência humana).../////////////

"Se esse cara fumasse ele até que ganharia minha confiança." Você disse, All. Na hora lembrei-me de Quintana, "Desconfie dos que não fumam", mas não lhe disse nada porque eu sabia que você não conhecia esse poema,/// (você só lia Quintana através de minha boca)
No mesmo momento, olhando para o seu rosto, estático //(meu Deus, você segurando o cigarro, não há Van Gogh ou A.Malfatti que possa distorcer uma visão como essa)
compreendi porque, de nós dois, eu escrevia.

O mundo não suportaria você como messias,
Você fazendo milagres por aí.

Como era fantástico o seu dedo apontando para tudo o que eu sonhava ter.

16.6.10

All, (parte 4)

O teu nome foi o que vi primeiro. Estava azul -é claro- brilhante num cartaz com o mapamundi, maior que o nome dos oceanos e dos continentes. Depois vi o teu rosto e assim o teu nome tornou-se ainda maior. Jurei no mesmo instante que seria minha a tua virgindade (que grande garoto eu era!).

Eu escrevia poesia como o Dean atuava na vida e nos filmes

(o meu caderno sobre o volante do carro do meu pai às 00:00hs e um olhar de Einstein em frente a e=mc²)

alí eu fiz meu primeiro poema pra ti, com a folha cheirando a conhaque que gotejava da minha boca,

"All, todos os meus poemas nasceram junto de ti/ Todas as palavras que conheço ficaram envoltas a ti por nove meses/ Tua mãe é a mãe de tudo o que conheço, Tua mãe é a mãe de minha mãe/ Não há outra vida senão ao teu lado/ E você não poderá controlar o que está prestes a acontecer a nós dois."

Guil

PS: Eu estava lhe esperando.


Você nunca agradeceu por nada.
Você sempre aceitou tudo da mesma forma que eu aceitei a tua primeira mentira.
Meu Deus, como éramos parecidos!

All, (parte 3)

Eu poderia muito bem parar de querer você. Eu poderia muito bem atravessar a década de 80, lá é onde estão as mulheres de minha vida, casadas, com o Leminski, com o Franz, com o meu tio!

(eu irei Atravessar/
Firme/
///////// como um travessão que precede a voz do tempo)

Eu vou visitá-los e eles não me deixam parar de querer você.
Eles me aconselham escrever canções///////////(
eu escrevo canções mas elas não me tornam parecido com o Chico, único homem vivo com o charme de um poeta morto
)
Eles dizem, "Você tem que ser como um poeta morto, filho..."

Ah//

Eu escrevo para não morrer, All, e tanto a vida quanto a poesia não tem valor nenhum pra você. Eu escrevo porque estou vivo mas isso lhe soa brega (você é mais triste e bonita que isso).


Eu e a felicidade corremos atrás de você e eu sempre chego depois dela, a tempo de pegar apenas sua boca desdesenhando um sorriso seu... desdenhando um sorriso meu...

O que me diria se eu e a felicidade chegássemos juntos?

All, (parte 2)

Me lembro muito bem que eu gastei todo o meu dinheiro contigo, All, porque eu quis! e você nunca deu valor a isso! você nunca deu valor a nada!!!/////////////

(para você as coisas não têm preço e por isso lhe saem sempre de graça)

Mas é como minha mãe lhe disse, "Um dia Deus cobrará de você";

Eu acredito nisso!

(falando assim é como se eu nem me lembrasse de que você foi quem me ensinou a amar de verdade, você me apresentou Deus pessoalmente)

"Gui, Deus é só alguém que lhe quer bem, e fique tranquilo, ele não vai lhe pedir nada em troca"

É triste pensar que você levou todo o meu dinheiro...

All, (parte 1)

Se a cada segundo me caísse aos pés uma mulher um tanto mais bonita que você, All, ainda assim eu ficaria ao teu lado.

Claro, você teria que fazer alguns favores, como, por exemplo, levantar cada uma delas para que pudessem alcançar as nossas bocas.

Tradução de "All Says", Dr. and Documents, uma banda que eu inventei;

All diz
Que está chegando o dia em que eu vou encontrar a minha garota.
Que será branca como uma nuvem,
E choverá sobre mim,
Que será branca como uma nuvem,
E choverá sobre mim.

All diz
Que ainda neste ano eu vou encontrá-la,
Que ela estará passando do outro lado da rua,
Que após a passagem de um Mustang 67 os seus cabelos estarão voando e aí eu me apaixonarei,
E olharei para os céus procurando a chuva,
E olharei para os céus procurando a chuva.

All diz,
Que está chegando a hora em que encontrarei a minha garota,
Que será branca como uma nuvem,
E choverá sobre mim.
Que será branca como uma nuvem,
E choverá sobre mim.

Mas, se eu não me encontrar com All,
Se eu não vê-la passar do outro lado da rua,
As nuvens continuarão iguais,
Cinzas, chovendo sobre o mundo inteiro,
Cinzas, chovendo sobre o mundo inteiro.

3.6.10

VOU















Vou
ou
fico?

O futuro é a minhoca balançando lá no bico
do pássaro a quem eu chamo de meu Deus Zé Orixá.

Vou
ou
fico?

O passado é a geringonça que eu fiz quando criança
e não tenho esperança de usar, reutilizar.

Vou
ou
fico?

O presente é esse doente que reclama a dor de dente
quando tem um mundo de gente morrendo sem reclamar.

Não vou
Não fico.
Não quero ir nem ficar.

Porém,
O que se tem,
Senão essas horas?

Passado, presente e futuro.
Me dê todos agora.